Não acreditei no que ouvi, acho que eu não queria
acreditar, era irreal demais para ser verdade, minha avó não podia estar morta,
ela era forte demais para isso. Sentei do lado da minha mãe enquanto Mel foi
pegar água para ela
-
Aqui Dona Laura, isso vai servir para acalmar a senhora – disse Mel entregando
um copo de água com açúcar a minha mãe.
-
Obrigada Mel. – disse minha mãe enquanto pegava o copo com as mãos trêmulas.
-
Mãe, como isso aconteceu? – perguntei me controlando para não chorar, vendo
minha mãe no estado em que ela estava eu decidi que seria forte afinal, eu
teria que ser a sua força, e ela ia precisar de mim mais do que nunca.
-
Não sei minha filha, ela estava bem em casa, aí passou mal e morreu. Os médicos
disseram que ela chegou viva ao hospital, mas teve uma parada cardiorrespiratória
quando estava lá.
-
Amiga vou ligar para a minha mãe e avisar a ela. – disse Mel pegando o celular.
-
Ok. Tenho que ligar para a minha tia. Mãe eu vou aí ligar para a tia Lúcia, a
senhora vai ficar bem?
-Vou
sim querida, pode ir.
Deixei minha mãe na sala, subi para o meu quarto e
tranquei a porta, ao sentar na cama foi como se a verdade me atingisse em
cheio, minha avó, minha segunda mãe, aquela que me dava conselhos, que me
apoiava, tinha partido e não ia mais voltar. Então eu chorei, chorei por não
ter tido a chance de me despedir, de não poder dizer a ela que eu a amava,
seria difícil aprender a conviver com o vazio que já começava a se instalar
dentro de mim, era como se mesmo sabendo que ela tinha partido, ainda restasse
um pouco de esperança de que fosse apenas mais uma de suas longas viagens.
Chorei até cair no sono, acordei horas ou minutos
depois, com alguém batendo na porta.
-Eve?
Você está bem? – Era Mel. – Eve? Você está aí?
Levantei-me e abri a porta, assim que ela me viu com
os olhos vermelhos e inchados, ela me abraçou e eu recomecei a chorar, enquanto
ela tentava me consolar não notei que alguém se aproximava. Ao levantar os
olhos do ombro de Mel tomei um susto.
-Pai?
– Esqueci-me de contar um detalhe muito importante da minha vida. Meus pais são
separados, desde que eu nasci. Às vezes eu me sinto culpada, como se eu tivesse
sido a causa da separação deles, mas minha mãe disse que o casamento já não
vinha bem a algum tempo e que a separação não teve nada a ver comigo, mas hoje
eles tem uma relação amigável.
-
Oi querida – disse ele enquanto caminhava na minha direção para me abraçar.
-
Onde está a mamãe? – perguntei meio atordoada.
-
Agora ela está dormindo – respondeu Mel.
-
Mel me desculpa por ter jogado tudo em cima de você
-
Não se preocupe, você precisava de um tempo sozinha, e eu fico feliz em ser
útil, agora eu vou pra casa bem rápido só pegar umas coisas e volto para ficar
aqui com você.
-
Mas e as coisas do funeral? Quem vai organizar tudo? – perguntei preocupada.
-
Suas tias e eu estamos cuidando de tudo, elas estão vindo de Londres só para
cuidar desses preparativos.
O
resto da noite passou como um borrão, não lembro de ter dormido muito, passei a
maior parte da noite conversando com Mel, ela estava fazendo de tudo para me
animar, mas era meio difícil. Por volta das 4hrs da manhã consegui dormir um
pouco e quando acordei tinha apenas uma certeza. O dia seria bem difícil. De
manhã Mel e eu levantamos e fomos nos arrumar, hoje era o dia do velório e do
enterro da minha avó, ainda era bem difícil de acreditar que ela tinha partido.
Ao chegarmos lá em baixo Pedro nos esperava.
-E
aí? Tudo bem? – ele perguntou enquanto vinha me abraçar
-Na
medida do possível. – eu disse sentindo meus olhos se encherem novamente de lágrimas.
Por um momento não quis que ele me soltasse, quando ele me abraçou foi como se
por um breve instante eu esquecesse um pouco de tudo.
-Seu
pai mandou te dizer que ele foi para a casa da sua tia com sua mãe, e que você
fosse para lá assim que acordasse – quando ele me soltou senti uma imensa
vontade de me trancar novamente em meu quarto, me afundar nos travesseiros e
chorar. Mas o que era isso? Eu nunca tinha me sentido assim em relação a ele,
meu Deus, como eu estava confusa...
Saímos
e fomos para a casa da minha tia onde aconteceria o velório.Quando chegamos lá
a atmosfera era de desolação total,eu não iria agüentar ver todos assim, era
triste demais, ao entrar lá várias pessoas vieram me cumprimentar, depois de
falar com todas as pessoas que conheciam minha avó, eu finalmente tive tempo
para ir aflar com minha tia que estava na cozinha fazendo chá para todos, se eu
a conhecia tão bem quanto eu pensava, ela tinha ido se ocupar com alguma coisa
para esquecer dos problemas, ela fazia isso sempre que precisava espairecer.
-Oi
tia Lúcia – eu disse entrando na cozinha
-Oi
querida, como você está?
-Levando,
e a senhora?
-Bem,
na medida do possível, você já foi vê-la? – ela perguntou com uma voz meio
distante.
-Não,
não sei se tenho coragem, é muito difícil dizer adeus – senti uma lágrima
descer pelo meu rosto.
-Mas
essa será a sua última chance, então eu acho melhor você aproveitar. – disse
ela enquanto saia da cozinha com uma bandeja de chá
Me
apoiei na pia da cozinha eu fiquei lá de cabeça baixa por um bom tempo, até que
escutei alguém batendo na madeira perto da porta
-Ah,
oi Pedro. – eu disse indiferente, eu sei que não era à hora apropriada para
reparar isso, mas parecia que ele estava mais bonito do que nunca, ele usava
uma camisa preta com as mangas dobradas até os cotovelos, uma calça jeans meia
velha e um All Star surrado.
-Oi,
tava te procurando, e sua tia disse que você estava aqui, então vim ver como
você estava – disse ele se sentando em uma das cadeiras da mesa.
-Tô
bem sim, obrigada pela preocupação – sentei-me em uma cadeira de frente para
ele.
-Você
lembra daquela vez que eu coloquei um grilo na sua bolsa e a vovó Jane viu?
-Lembro
sim, e ela brigou com você, dizendo que isso não era coisa que se fizesse –
começamos a rir com a lembrança, era tão fácil conversar com ele, uma pessoa
que sempre me fazia sentir bem
-Você
já foi vê-la? – ele perguntou enquanto ia pegar duas xícaras de chá
-Minha
tia acabou de me perguntar isso, não ainda não fui, não tive coragem de dizer
adeus, não quero que ela se vá – eu disse baixando a cabeça.
-Ei,
você sabe que sempre vai ter a mim e a Mel né? – disse ele pegando minha mão
-Sei
sim, muito obrigada
-E
você já foi olhar ela? – perguntei tentando não parecer tão envergonhada quanto
estava
-Já
sim – ele disse soltando minha mão e indo se apoiar no balcão da cozinha
-E
como ela está? – eu tinha que saber pelo menos isso
-Como
sempre foi, parece até que ela está só tirando uma soneca
-Queria
ter coragem de dizer adeus, mas eu não consigo, não sozinha – eu disse
enxugando as lágrimas que já desciam por minhas bochechas.
-Se
você quiser, eu vou lá com você.
Então
ele pegou minha mão e me levou para a sala onde o corpo estava sendo velado, a
cada passo que eu dava para mais perto do caixão, eu sentia meu coração
afundar, como se cada passo que eu desse fosse um sacrifício.Vê-la não foi a
pior parte, ruim mesmo foi saber que eu nunca mais veria aquele rosto, que
nunca mais teria aqueles braços em torno de mim, para me dar um abraço reconfortante,
foi saber que ela não estaria mais ali para me escutar e falar comigo, que eu
nunca mais escutaria aquela voz doce cantando músicas antigas enquanto
cozinhava.Recomecei a chorar(vocês já devem estar cansados de me ouvir dizer
que eu chorei, mas é que perder um parente não é fácil) só que dessa vez eu
senti que Pedro me abraçava.
O
enterro foi a parte mais difícil, enquanto abaixavam o caixão eu vi minha mãe se
desesperar e não pude fazer nada, eu estava abraçada com Mel e Pedro e ambos me
consolavam.
Ao
chegar em casa subi direto para o quarto, eu estava cansada demais para fazer
qualquer outra coisa.A última coisa que me lembro foi de deitar na cama e
apagar.

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